domingo, 9 de agosto de 2015

DIAS DOS PAIS - MÃES QUE SE TORNARAM TAMBÉM PAIS.


Hoje dia 09/08/2015  dia dos pais amanheci com muita vontade de escrever minhas memórias. José Domingos de Freitas , meu querido pai, desencarnou quando eu tinha 8 anos de idade, foi brutalmente assassinado. Lembro-me da nossa confusão e   desorientamento. Minha mãe QUE ERA APENAS CUIDARA DO LAR lar, alfabetizada mas sem nenhuma educação formal, não estava preparada para gerenciar um lar. A perda de meu pai de forma tão brutal, assassinado na frente de minha mães trouxe um caos em nossa vidas.
Lembro-me que morávamos na fazenda de meu avô , minha avó paterna morava conosco , minha avó materna morava na sede da fazenda em uma casa grande, íamos todo final de semana para sua casa. Eu era muito feliz, não tinha noção de dinheiro, tinha o que precisava tinha quatro irmãos menores que amava e cuidava como se fossem meus filhos. 
Com a queda do café  e perda de meus tios meu avô materno resolveu vender a fazenda . Mudaram para Jataí, meus avós minhas tias e tios que amava tanto saíram de minha vida, eu não entendia o porquê e para completar minha tristeza levam a minha irmã que se aproximava da minha idade.
Foi um grande transtorno emocional, o primeiro de minha vida que virou de cabeça para baixo. Com quem eu iria brincar ? Olhava para minhas bonecas de pano é ela pareciam triste e sem vida.
Meus dois irmão mais próxima além de ser muito criança eram homens e não gostava de brincar de boneca  minha irmãzinha caçula era quase um bebê ,Foi meu primeiro luto. Ficamos na casa grande de meu avô até decidir a nossa vida. A casa enorme que antes era cheia de risos e alegria agora estava vazia e triste. Meu pai foi para São Paulo em busca de oportunidades para que pudéssemos mudar para lá. Eu era a filha maior, mais velha com meus 8 anos de idade tinha que bancar o suporte para minha mãe, não podia decepciona-la, assim engolia meu choro. A ida de meu pai a São Paulo não deu certo e mudamos para Cassilândia (MT)  é foi lá, pouco tempo depois  que meu pai foi assassinado , agora sim meu mundo desmoronou, fiquei perdida não compreendia a morte do meu pai. Meu tio e tia vieram para o enterro e trouxe minha irmã companheira e amiguinha, só que, o momento não era para brincadeira era de dor, muita dor.
Achei que morreríamos todos ali, fiquei gravemente doente mas sobrevivi.
Fui alfabetizada pelo meu pai na fazenda. Em  Cassilândia entrei na Escola no primeiro ano C porque já sabia ler. Após a morte de meu pai voltei a Escola é um fator não explicado, na época, aconteceu , esqueci o que aprendera com meu pai, com a sua morte morreu também o meu conhecimento.
Passado pouco tempo meu tio veio nos buscar para mudarmos para Jataí, como deixar meu pai? Sepultei de vez a minha felicidade, a família maravilhosa que tive foi tragada pela tragédia.Quem tinha tudo agora não tinha nada. Meus avós e tios tentaram nos ajudar, mas eu tinha me trancado em meu próprio eu, estava enclausurada em minha dor.
Com muito sofrimento os dias passavam lentamente. Minha irmã querida estava em outro mundo a sua família que  agora era da casa grande já que ela ficou morando com minha avó enquanto eu ficava em casa pobre que meu avô nos cedeu, se não fosse meu avô querido não sei o que teria sido de nosso destino, minha mãe vestida de luto não parava de chorar , e, eu fiquei anestesiada no mundo que perdera.
Apareceu então uma ideia que eu não conhecia, a divisão de classe. Eu agora era pobre e como pobreza dói....minha mãe foi trabalhar no bar do meu avô ela fazia salgados e eu com 8 anos de idade cuidava da casa e dos meus três irmão menores.
Matricularam-me em uma Escola de freira, com bolsa claro, não tínhamos dinheiro para pagar.
Ali conheci a  chamada palmatória, apanhei muito porque tinha esquecido as letras....meu conhecimento morreu com meu pai. Fiquei muito angustiada procurava na memória o conhecimento das letras e elas me fugiam. Me expulsaram da escola porque segunda as freiras diretoras e minha professora "eu era preguiçosa e não queria nada com nada". Minha mãe chorava e eu apanhei mais uma vez pelo meu desconhecimento.
Matricularam-me um grupo  escolar , lá continuou minha trajetória de sofrimento, apanhei mito com as chamadas palmatória. Resolvi me rebelar e fugia da escola ou rezava para que as aulas acabassem logo. O que me segurava na escola era o amor que sempre tive pela minha mãe, para não vê-la sofrer mais ainda,  eu me matava de estudar mas não aprendia nada minha inteligência estava aprisionada pelo trauma sofrido.
Hoje como psicopedagogia e psicanalista compreendo meu esquecimento, minha negação em aprender, era como se ao aprender eu negativasse o amor ao meu pai, meu professor alfabetizador.   Para mantê-lo vivo em minha memória eu negava mostrar aos outros minha aprendizagem que só a ele eu devesse mostrar. Na tentativa de sobreviver  desenvolvi um mecanismo de defesa aprendi a copiar , ou colar, eu sempre fui inteligente e na cola das colegas fui aprendendo as letras novamente. Interessante como nosso inconsciente desenvolve mecanismo de defesa , eu aprendia com as colegas mas não com o professor. No meu inconsciente só aceitava um professor e este era meu pai.
De tanto apanhar na escola fui revoltando tornei boa de briga e as colegas CDF, como hoje são chamados, colava em mim para não apanhar dos outros grupos.
Se alguém tocassem em mim, ou nos meus irmão apanhava feio, eu era muito magra mais muito ágil. Lembro que um menino maior que meu irmão bateu muito nele ( meu querido irmão Manoel) peguei um pau e foi em cima dele , ele correu e eu fui atrás , eu era menor que ele, pulei o murro e o peguei e bati com vontade, eu não aceitava que ninguém maltratasse meus irmãos.
Eu queria aprender para agradar minha mãe. Cheguei a terceira série para alegria de minha mãe.
Na terceira série encontrei uma professora de verdade. Eleusa França,como ela me influenciou,  era rígida mas nunca me bateu, ao contrário me incentivou consegui ver a minha inteligência através do trauma que tentava sufoca-la.  
Entrei no chamado Ginásio com média nem precisei passar pelo chamado exame de admissão.
No Ginásio as coisas voltaram a se complicar, as professoras sentiam-se poderosas e os alunos éramos os pobres mortais. Reprovei na quinta série e larguei a escola.
No próximo ano voltei a estudar para agradar a minha mãe que queria muito que eu terminasse o Ginásio. O sonho de minha mãe era que eu me tornasse uma normalista, grau máximo permitido para uma menina pobre como eu.Eu nem entendia o que era este tal de normal, só queria ver a minha mãe feliz. A minha  mãe foi pai e mãe e foi meu suporte. assim aos t5rancos e barrancos cheguei a 7ª série do primeiro grau Nesta época, quando passei para 7ª série,  um namoradinho de adolescência  me disse que parece que eu tinha me tornado gente. Aquelas palavras caiu fundo no meu coração! Entendi que eu não era gente.....seu nome é Rubens foi a última vez que eu o vi , porém suas palavras me martelavam eu não gente. O que eu era ? Era muito peso para uma adolescente , pobre que cuidava dos irmãos menores, ajudava a mãe em  da casa, ninguém entendia minha dor. A fala desse rapaz eu carreguei por muito tempo e só resolvi através da terapia anos depois. Eu teria deixado a escola , mas  apareceu na minha vida,como encaminhada por Deus, um anjo, uma professora  linda, calma, competente , se vestia muito bem ia dar aula com roupas bonitas e caprichadas sua aparência era gostava de se ver , sempre perfumada e carinhosa , entendia os alunos, parece que ela era uma psicanalista compreendia meus traumas sem que eu disse  nada , me deu a mão para a continuidade da vida acadêmica, com ela passei a gostar de Português e através dela e modelei-me  professora, entendi a fala de minha mãe . Firmei meu propósito de ser professora de fazer a diferença para meus alunos.
Comei lecionando para os adultos, a minha dor do fracasso que havia experimentado tornou motivo para  amar, entender e cuidar dos meus alunos, as suas mãos calejada representava a história de vida de cada um. Muitos me acompanharam até seus desencarnes. lembro muito até hoje de Dona Conceição minha aluna querida que deve estar no mundo espiritual.. Fui modelo, fui exemplo de vida para cada um.Tornei-me professora qualificada para alegria de minha mãe, porém, eu queria mais e mais.
Uma mulher pobre do interior de Goiás, na época,  não podia querer mais. Eu quis e fui. Com 19 anos entre na faculdade de pedagogia. Não parei aí...não parei até hoje estudo e sou professora na tentativa de modelar e fazer a diferença para meus alunos da graduação e pós graduação, seja eles da pedagogia, da enfermagem, do direito, da biologia. Não limitei minha área de atuação, onde estiver educação lá estou eu, graças a minha mãe que foi mãe e pai e graças a minha querida professora Laís França , hoje minha comadre, madrinha de meu filho mais velho, prof. Dr. Rodolfo Jacarandá.
Hoje como psicanalista olho para trás e vejo que minha mãe foi muito forte e eu encontrei, também professores que amavam suas profissões, as palavras de desconforto e exclusão que recebi na vida não foram forte o bastante para me paralisar, o amor de minha mãe foi mais forte. Fiz o mesmo com meus filhos naturais e com os  filhos do coração que Deus me mandou. Modelei-me no amor.    
 Meus irmãos , também são professores e como eu são graduados e pós graduados pois modelaram em minha pessoa. O amor foi mais forte.